Nesse tema, quero começar pelo Patusco, 55 anos em 2027 ou 65, caso contem com a organização antes do concurso de fantasia que fez o grupo ganhar o nome atual em 1972. É inegável a importância dessa bateria, dessa agremiação para o Carnaval de Olinda. Em 2026 fiquem em uma casa na frente da saída do Patusco, vi uma das saídas mais emocionantes do Carnaval. Arrastando multidão, vi o grupo reconhecer a importância dos blocos de frevo e, mais de uma vez, silenciar sua bateria e afastar para outros grupos passarem, mesmo sendo mais velho que alguns desses grupos, critérios usados para organizar a passagem nas ladeiras, evitando que a força prevaleça, como nos antigos carnavais.
Parabéns Patusco, minha paixão são as orquestras, mas admiro sua postura e também adoro seguir seu samba. Infelizmente não foi que vi ao passar perto de um grupo de samba com as cores das bandeiras de Pernambuco, no primeiro boneco gigante ouvi o “abre que é preciso respeitar a cultura de Pernambuco”, mas ao perceberem a fila de bonecos, a bateria fechou e a apoteose dos bonecos foi partida ao meio.
A postura da Cabulosa e das Sambadeiras, na avaliação deste folião, também merece aplauso. Imagino que não tenha sido fácil decidir sair das ladeiras e desfilar na parte de baixo do Centro Histórico, mas é na dificuldade que percebemos a busca por coerência e construção de melhores caminhos. Estamos tratando de patrimônio material e imaterial, de prédio e de pessoas, de orquestra e de paredão.
Muito precisa ser regulamentado, mas aqui, antes de seguir, quero deixar algumas perguntas sobre as Sambadeiras, por qual motivo viraram foco do debate? É o primeiro grupo nesse estilo? Seu paredão é mais “histérico” (para usar a expressão machista quando querem calar as mulheres) que dos outros grupos de samba? Foi proporcional os dedos apontados para esse grupo de mulheres como aos masculinos e/ou mistos? Pois é, a todo momento precisamos refletir sobre o machismo estrutural, independe de nossas posições sobre o debate.
Pois bem carnavalescos/as queridos/as. Sou um apaixonado pelo frevo, pelos blocos que ocupam as ladeias e fazem ferver nossos corações; corações que também vibram com o samba; com o maracatu; com o afoxé; com o coco de roda; com o forró. Corações que não podem ser parados pelos paredões estáticos em camarotes lucrativos ou casas privadas, estes sim devem parar para tradição passar. Corações devem seguir batendo de alegria.
Os blocos que amo estavam maiores que muitas baterias, alguns deles (sozinhos) atropelariam várias baterias juntas. “Meu” Boi (Macuca) foi questionado por descer a Boa Hora na quarta-feira de cinzas, eu mesmo cheguei a questionar se ele deveria ou não acompanhar os outros bois, mas lembrei o quando foi longa a jornada para ele chegar até ali, gigante, vibrante, o que não significa que essa questão não possa ser debatida coletivamente entre as agremiações.
Democracia não é apenas ter mais votos, ser maior. Democracia é ser diverso, ter parâmetros mínimos para nortear o coletivo. Uma coisa é certa, o Carnaval de Olinda é reconhecido internacionalmente por sua alegria, seu tamanho, sua diversidade. Chegou o momento de voltar a debater o que somos, nós (povo), os blocos (em sua diversidade de formatos e grupos) e a gestão pública. O que já consta na lei de defesa do Patrimônio Histórico e Cultural precisa respeitar e cumprir, e o que pode ser redimensionado pela gestão pública e pelos grupos que fazem o Carnaval deve ser debatido, construído coletivamente.
Por fim, nesse atual debate, pincelando um outro aspecto, entendo também ser necessário dialogar e normatizar os tipos de patrocínio em ambientes públicos, não é admissível que sejamos obrigados/as a consumir produtos impostos por uma marca ou ter as BETs enfeando nosso Carnaval com sua falta de cor, ameaçando a liberdade de artistas e deixando o povo cada vez mais pobre.